LUTO
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Durante todo o período da vida, atravessamos momentos de perdas. Algumas não representam grande sofrimento e são esquecidas rapidamente, outras têm grande influência e exigem um processo terapêutico para que possam ser superadas.
“O luto representa uma saída do estado de saúde e bem-estar, e assim como a cura é necessária no campo fisiológico, para trazer o corpo de volta ao balanço homeostático, um período de tempo é da mesma forma necessário para que o enlutado retorne a um estado similar de equilíbrio. Conseqüentemente o processo do luto é similar ao processo de cura” (WORDEN, 1988 p.22).
O luto é um processo que implica expressão da dor, retardá-lo não ajuda em nada, pelo contrário pode comprometer.
Quando confrontados com a perda daqueles que mais amamos, a vida pode deixar de fazer sentido. Podemos sentirmo-nos perdidos. Emocionalmente, nada em nós será mais profundo e doloroso do que o sentimento de perda irremediável.
É importante perceber a dimensão emocional da perda, pois há lágrimas que tem de ser choradas e há gritos que tem de ser gritados. A nossa condição humana pede-o, a saúde mental exige-o.
O traço mais característico do luto não é a depressão profunda, mas episódios agudos de dor, com ansiedade e dor psíquica.
Nestes momentos, o enlutado sente muita saudade do ente querido, chora e o chama.
Ambientes permissivos à expressão emocional são facilitadores e por isso transformadores da dor em expressão, o que facilita o enfrentamento do luto.
É de extrema importância que o enlutado possa conversar, compartilhar os sentimentos que poderá surgir como a tristeza, a raiva, a saudades e o desânimo. É importante também que a própria pessoa se permita vivenciar todos esses sentimentos e aprenda que a trajetória do luto leva algum tempo para chegar ao seu término.
O papel do profissional de psicologia, em um processo de luto, é de acompanhante, que vai oferecer suporte durante a trajetória do enlutado e ajudá-lo a entender e lidar com os sentimentos que aparecem no decorrer do processo.
A terapia é a melhor indicação para este caso. No processo terapêutico, a pessoa terá a oportunidade de expressar a saudade, a raiva e o medo, o horror ante a perspectiva da solidão, o choro impotente. São sentimentos que a sua rede de apoio (familiares e amigos) tem dificuldades de compreender porque também lhes causa dor. Além disso, terá o ambiente propício para validar seus sentimentos sem julgamentos, o que o ajudará a transpor esse período de luto, até dele emergir.
Mascarar ou fugir do luto causa ansiedade, confusão e depressão. A terapia auxiliará o enlutado a aceitar a realidade da morte, a vivenciar o pesar, a ajustar-se ao meio no qual o falecido não mais se encontra e a reinvestir sua energia em novas relações.
Assim como o luto é um processo, a terapia para o luto também o é; assim, ela se desenvolve de acordo com o tempo do paciente, entendendo a sua dor e seus medos. A terapia se propõe a ajudar e não a impor uma forma correta de viver o luto, mesmo porque esta forma não existe; o que existe é um ser humano que expressa sua perda e esta expressão é única, peculiar a cada um de nós.
Bowlby (1973/1993) enumera quatro fases no processo de luto, entretanto não afirma que todos nós necessariamente passamos por elas ou que não há oscilações; apenas enfatiza que estas são apenas reações esperadas.
A fase de entorpecimento, geralmente dura de algumas horas a uma semana e pode ser interrompida por explosões de aflição e/ou raiva extremamente intensas. Esta fase se segue à noticia da morte; é a sensação de que isto não é verdade, de que a notícia não é real.
A fase do anseio e busca da figura perdida, que dura alguns meses e por vezes anos. Nesta fase procuramos aquele que perdemos, esperamos por sua aparição, que surja na porta de entrada ou que esteja em seu quarto como de hábito. Esta procura pode se dar sem que tenhamos consciência dela; quando nos percebemos, já estamos à procura do ente querido.
A fase de desorganização e desespero, nesta fase a pessoa já começa a perceber a realidade da perda; conseqüentemente, se desorganiza em seus sentimentos, sente raiva pela pessoa que partiu, pois considera que foi abandonada, sente-se deprimida por se dar conta de que não há o que fazer. Estes sentimentos se alternam com movimentos de avaliação da nova situação e a redefinição do papel atual.
Por fim, a fase de maior ou menor grau de desorganização. Geralmente após um ano da morte, a pessoa enlutada consegue dar continuidade à sua vida, apesar da saudade; ela ainda se sente triste, mas está mais bem organizada para realizar suas tarefas.
Cada indivíduo vivencia estas fases a seu modo e, depois da dor, volta a investir na sua vida e nas pessoas que continuam a seu lado. Viver o processo do luto não tem como objetivo esquecer aquele que nos foi importante; o objetivo é o de viver, apesar da perda. Continuaremos sentindo a falta daquele que partiu em datas importantes e desejaremos estar ao seu lado, mas agora sabemos que podemos retomar a trajetória da nossa vida.
Muitas pessoas não conseguem reinvestir em suas vidas, pois continuam acreditando que podem voltar a conviver com a pessoa perdida; assim, vivem uma depressão e, conseqüentemente, um luto crônico.
Outro agravante importante do processo de luto é o tipo de morte: inesperada e prematura; após doença muito longa; suicídio; e assassinato. Igualmente importante é o fato de o enlutado ter desconhecido o diagnóstico e/ou prognóstico da doença que acometeu o morto; e o enlutado que se encontrava fisicamente distante por ocasião da morte.
Os suportes sociais, por sua vez, são fatores predisponentes para um luto mais ou menos complicado: o indivíduo enlutado sem filhos ou familiares próximos poderá ter seu processo de luto agravado.
Nos casos em que a pessoa vive um luto crônico, é necessária uma ajuda especializada.
Psicóloga Anelise Mira – CRP 08/15078